Boas-vindas ao blog + resenha: Gótico Mexicano, de Silvia Moreno-Garcia (com spoilers)

Olá, queridos leitores! Espero encontrá-los bem. Sejam todos bem-vindos ao blog Estantes do Imaginário!

Eu me chamo Liz e esta é oficialmente a primeira postagem do blog (e com isso quero dizer que é uma postagem de conteúdo, não apenas com palavras como "teste" ou "lalalala". Enfim...). 

Estamos em março de 2025, mas desde o ano passado comecei a levar mais a sério a ideia de (re)fazer um blog para divulgar as minhas impressões sobre os livros mais diversos, entre outras coisas. Digo "refazer" porque entrei nesse mundo de blogs há muito tempo, como a data no meu perfil denuncia - depois deem uma olhada lá hahaha. 

Ler, escrever e trocar comentários com pessoas que possuem interesses afins nunca deixou de ser prazeroso para mim, mas, por diversos motivos, acabei me afastando de algumas dessas atividades. Sei que não fui a única: observei como muitas pessoas migraram para o Tumblr, por exemplo, deixando o "ecossistema" do Blogspot mais desértico. Tantas coisas aconteceram na internet (e na minha vida) desde então que é até difícil recordar exatamente em qual momento eu deixei meu antigo blog de lado e quando foi que comecei a pensar em retomar esse hobby. O importante é: cá estou, e vou buscar me manter firme nesse novo projeto.

Aqui, a maior parte das postagens consistirá em resenhas de livros, mas também haverá conteúdos sobre música e outras coisas mais, com uma frequência ainda não totalmente definida. Então, chegamos a um ponto importante: este blog funcionará como uma extensão da minha conta do Instagram @estantesdoimaginario, e não o contrário, como eu havia pensado em fazer anteriormente. Em outras palavras, serei mais ativa no Instagram do que aqui.

Sei que o Instagram permite alcançar um público maior, mas esse não é o motivo principal para a minha decisão, ainda que seja importante. Na verdade, eu ainda não me sinto segura em estabelecer uma frequência de postagens para este blog: quinzenal parece um pouco desafiador para a minha rotina, mas mensal, por outro lado, já parece pouco demais... E não quero fazer as coisas de qualquer jeito só para ter o quê postar e cumprir o cronograma. Assim, acredito que no Instagram poderei ser mais presente e compartilhar minhas impressões sobre diversos livros de modo mais objetivo. Este blog ficará reservado, então, para aqueles assuntos que parecerem dignos de uma análise mais extensa, seja porque a obra me tocou de um modo especial, seja porque deu mais "pano pra manga", abrindo o leque para maiores discussões.

Bem, chegou a hora de concluir essa apresentação... Mas não o post! Para ninguém dizer que não falei das flores eu só prometo e não entrego, já vou deixar uma resenha aqui com vocês! O livro escolhido foi Gótico Mexicano, da escritora Silvia Moreno-Garcia, que terminei de ler há pouco mais de duas semanas mas ainda está suficientemente fresco na minha memória. Aviso que a resenha conterá passagens COM SPOILERS, que serão indicadas pela cor do texto, que vai estar em uma tonalidade bem mais clara. Além disso, esses trechos serão delimitados por emojis de sirene. 🚨(EDIT: Quem gosta de usar o tema escuro no celular provavelmente não vai notar nenhuma diferença na cor do texto...).

Sem mais delongas, vamos lá!

 

Resenha: Gótico Mexicano, de Silvia Moreno-Garcia (com spoilers) 
 
Os cogumelos são um tema recorrente no livro. Ainda não sei tirar aquelas fotos super "aesthetics"...


"Gótico Mexicano" é um livro da escritora mexicano-canadense Silvia Moreno-Garcia e publicado originalmente em 2020, tendo chegado ao Brasil em 2021 pela editora Darkside. 

Sei que a palavra "gótico" pode causar confusão em algumas pessoas, então vamos esclarecer: o título do livro não é referente a um indivíduo que segue o estilo gótico, e sim a um gênero artístico/literário que explora temas sombrios e com elementos de horror - abundantes em Gótico Mexicano. 

A história é centrada na jovem Noemí Taboada, que vive uma vida intensa na Cidade do México dos anos 1950, dividida entre os estudos e as festas que adora frequentar. Ela é carismática, extrovertida, gosta de tocar piano e almeja se tornar antropóloga. 

Um dia, Noemí recebe uma carta preocupante de sua prima Catalina, a quem não vê desde que esta se casou e se mudou para uma mansão distante da cidade. A carta de Catalina trazia ideias aparentemente fora da realidade e deixava transparecer muito medo e confusão, chegando a acusar o marido, Virgil Doyle, de querer envenená-la, e suplicando a Noemí que fosse libertá-la. 

O pai de Noemí a convence a visitar a prima e descobrir o que está acontecendo - aquela perturbação não poderia ser fruto de problemas conjugais? Talvez uma mulher pudesse compreender melhor a situação... 

Diante disso, Noemí parte para encontrar Catalina, e acaba descobrindo que os temores da prima não eram assim tão desprovidos de fundamento. 

A protagonista logo percebe que aquela mansão cercada por neblina em que Catalina passou a residir possuía uma atmosfera pesada, opressiva e mesmo decadente, assim como os membros da família Doyle e seus empregados, com exceção de Francis, um homem sensível cuja gentileza é um sopro de alívio. 

O que é revelado pouco a pouco é a extensão da decadência da casa. Não se trata apenas de uma propriedade que já não tem o esplendor de outrora, nem da mina de prata da família que já não funciona mais, e sim de uma decadência em nível mais profundo, orgânico, inclusive. Uma decadência que, como uma rede de fungos, se espalha, infectando corpos e mentes. 

Os símbolos que permeiam a narrativa são bem interessantes e adequados. Um deles é o Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, cujo significado dentro dessa obra é mais sinistro do que se poderia imaginar a princípio e que me faz lembrar da pintura "Saturno devorando um filho", de Goya. Taí uma obra de arte que me causa desconforto, viu...

Os cogumelos, sendo formas de vida que prosperam com a decomposição da matéria, também são profundamente simbólicos, e guardam similaridade com a ideia de uma família que enriqueceu às custas da exploração de tantos trabalhadores na mina de prata (permitam-me literalmente abrir um parêntese: eu ADORO cogumelos e admiro o quanto eles são essenciais para a manutenção de vários ecossistemas, se não do planeta inteiro, mas até mesmo essas formas de vida tão lindas podem ser representativas de algo mais sombrio, como o livro em análise exemplifica bem. Não deixei de achá-los magníficos hahaha). Os cogumelos têm outras funções dentro dessa história, mas isso eu vou deixar para os futuros leitores descobrirem *piscadela* rs.

Indo além do drama cujo ponto de partida é a carta de Catalina, Gótico Mexicano surpreende ao abordar problemas sociais mais amplos, como o racismo e a eugenia. Noemí, antes mesmo de chegar à mansão, recebe a instrução de que todos naquela casa devem falar em inglês (idioma que felizmente ela já dominava). A família Doyle originalmente veio da Inglaterra e buscava manter certas tradições oriundas de seu país de origem; mas o que ocorre é, mais que qualquer outra coisa, uma busca pela manutenção de sua suposta superioridade racial. 

Guardadas as devidas proporções, me veio à mente o filme sul-coreano "A Criada", cuja história praticamente inteira se passa em uma mansão situada na Coreia do Sul, mas construída em um misto de estilos arquitetônicos - britânico e japonês - e dentro da qual todos deveriam se comunicar em japonês, a língua do então colonizador. Gótico Mexicano e A Criada tem pouco ou mesmo nada a ver um com o outro, mas... Digamos que certas dinâmicas vistas no ambiente doméstico talvez possam ser comparadas. 

A eugenia é, de fato, um ponto de discussão que surge forte em Gótico Mexicano. O patriarca, Howard Doyle, não mede palavras ao mencionar suas crenças relativas à existência de raças superiores e inferiores, 🚨 porém, como não deve ser surpresa para ninguém, é claro que ele considera que mesmo o corpo de uma jovem e bela mulher de uma raça "inferior" pode ter o seu valor se isso for para o benefício da classe dominante. 🚨

Quantas vezes as pessoas pertencentes a grupos raciais ou étnicos diferentes daqueles dos dominadores já não foram exploradas das mais diversas formas, mesmo depois de suas mortes, em alguns casos? Não pretendo me estender aqui falando sobre racismo ou escravidão, mas gostaria de deixar o link para uma história real que talvez poucas pessoas conheçam: a história da dissecação do sistema nervoso de "Harriet Cole", e da busca por descobrir quem, afinal, foi essa mulher (existe material em português disponível sobre o assunto, mas não posso deixar de recomendar essa matéria do site Atlas Obscura, que já li e posso dizer que é excelente).

A história se desenrola de modos que eu não havia imaginado, mas o final em si teve algo de previsível, sem que tenha deixado de ser satisfatório. 🚨 Como era de se imaginar, um incêndio consome a casa ao final - vale lembrar que o próprio Francis, em certo momento, havia deixado escapar que, em uma certa ocasião trágica do passado, melhor seria se a casa tivesse pegado fogo. Mas foi satisfatório? Sim, eu diria que foi necessário E satisfatório haha. 

Noemí, Catalina e Francis conseguem escapar (sim, pois Francis, a seu modo, também era um prisioneiro). Fiquei feliz que Noemí e Francis terminaram juntos. Ele foi o meu personagem favorito, aliás (se bem que não havia lá muita gente nesse livro que pudesse acabar em um elenco de "personagens favoritos"). Achei positivo que a autora conseguiu trabalhar bem a gradual aproximação entre Noemí e Francis, mas sem deixar espaço para algo mais quente, por assim dizer, porque isso destoaria bastante tanto da personalidade de Francis quanto da atmosfera geral construída na obra. 🚨

O último parágrafo do livro me fez sorrir genuinamente.

Como ponto negativo, acho relevante destacar que, infelizmente, há diversos erros no texto. Sinto que o trabalho de revisão e mesmo o de tradução poderiam ter sido mais cuidadosos. A Darkside está no mercado desde o ano de 2012; em 2021 (data da publicação da edição brasileira de Gótico Mexicano) ela já não era novata. Engraçado que eu já li livros da Darkside mais antigos que esse e não me lembro de ter percebido tantos erros... 

Essa ressalva, porém, não diminui o brilho da obra em si, apenas da sua apresentação para nós, público brasileiro. 

Em suma, foi uma leitura proveitosa e que eu recomendo para todos que gostam de histórias com elementos sombrios, mistério e uma levíssima pitada de romance.


Nota: 4/5 cogumelos dourados 


Chegamos ao final. Gostaria de agradecer a todos que leram até aqui, e também à minha amiga Natália, que me emprestou o livro hahaha.

O que acharam? Como eu poderia melhorar? Têm dicas de leituras ou sugestões para postagens futuras? Deixem um comentário! 

Vocês também podem me seguir aqui no Blogger, é só clicar no botão "seguir" que fica no menu da lateral esquerda. E não deixem de acompanhar o Instagram @estantesdoimaginario, pois as novidades vão sempre ser postadas lá primeiro!

Ah, antes que eu me esqueça! Todos estão convidados a também me seguirem no Skoob (o link para o meu perfil está na página "sobre o blog"). A maioria dos livros que eu leio ficam registrados lá.  

Obrigada, pessoal! Beijos e até a próxima! 

P.S.: Formatar o texto aqui tá sendo pior do que eu pensava. 😅

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