Uma resenha de "Detalhe Menor", ou: será que precisava de tanto detalhe assim? (COM SPOILERS)
Olá, pessoal! Já faz um tempo, não? Hoje vim falar sobre o livro Detalhe Menor, da escritora palestina Adania Shibli.
Pela primeira vez neste espaço, esta será uma resenha em um tom bastante crítico. É preciso dizer, aqui, que o fato de um livro tratar de um assunto importante e até urgente de ser discutido não torna tal livro automaticamente bom.
Vamos à resenha (com spoilers!).
Resenha: Detalhe Menor, de Adania Shibli (com spoilers)
Detalhe Menor é um livro dividido em duas partes. Na primeira delas, acompanhamos um grupo de soldados israelenses acampados em uma região do deserto do Neguev, ao sul da Palestina, no ano de 1949. Eles mantêm uma rotina de rondas pela região, até que, certo dia, encontram um grupo de beduínos. Todos os homens desse grupo são assassinados pelos soldados; uma adolescente, porém, cujo nome sequer é mencionado, é capturada. Ela passa por humilhações, por violência sexual e, por fim, é assassinada no dia 13 de agosto de 1949.
Na segunda parte, uma mulher anônima que vive na cidade de Ramallah lê um artigo de jornal tratando do caso narrado na parte um. Um detalhe chama a sua atenção: o fato de que o assassinato da garota ocorreu no dia que viria a ser, 25 anos depois, o do seu nascimento. Sem conseguir parar de pensar no assunto, ela decide empreender uma busca por maiores informações sobre o ocorrido.
A primeira parte do livro traz uma linguagem profundamente crua, sem tentativas de embelezamento - o que consigo compreender: não vejo qualquer lirismo nos terríveis fatos narrados. Senti-me incomodada com a leitura e com o sofrimento imposto à garota. No entanto, o meu incômodo não foi devido apenas àquilo que estava sendo relatado, mas também ao como.
Essa parte inicial do livro traz diversas passagens que me pareceram supérfluas. Descrições minuciosas de como o comandante dos soldados realizava o seu processo de higiene, por exemplo. Depois me veio a ideia de que talvez essas descrições detalhadas acabem por servir ao propósito de expor o desprezo que aqueles israelenses sentiam pelos árabes; enquanto o processo de banho do comandante era algo controlado e quase ritualístico, ele, em outra ocasião, tomou a liberdade de simplesmente rasgar as roupas da garota e dar um banho de mangueira nela na frente de todos os outros. Mas não sei até que ponto essa é uma superinterpretação da minha parte para tentar encontrar algum sentido nos trechos mais maçantes.
Um aspecto que acompanha o comandante ao longo de toda a primeira parte do livro é que, ainda no começo, ele sofre uma mordida de aranha na coxa. Ele busca tratar a ferida sozinho, mas a própria ferida e os efeitos adversos do veneno vão ficando cada vez piores. Cá entre nós, por que ele não buscou ajuda? Não é possível que não houvesse um médico naquele acampamento! Ou é? Enfim...
A princípio, não vi muita razão de ser para tanta atenção que foi dispensada a essa questão da mordida. Bem, é fato que ela acabou conduzindo a um momento da narrativa em que, tomado por calafrios, o comandante buscou o corpo da garota para recuperar o calor... Mas logo depois, como fica entendido nas entrelinhas, as ações do comandante vão além disso.
Em alguns momentos do livro, como na própria passagem do banho de mangueira e em outras posteriores, há menções de que os cheiros advindos do corpo da menina causavam incômodo. Quase no final da parte um, contudo, o comandante surpreende-se ao perceber que a ferida em sua coxa havia estourado, emanando "um fedor penetrante" (página 44). Isso surgiu para mim como uma espécie de metáfora: os soldados consideravam-se imaculados e no pleno direito de conquistar aquela região e torná-la fértil e próspera (ao menos era esse o seu discurso), não obstante cometessem diversos tipos de violência no caminho, e, ao mesmo tempo, tinham os sentidos fechados para a sua própria "podridão".
A segunda parte do livro é um pouco menos contundente. Acompanhamos a personagem sem nome ao redor da qual toda a ação acontece: ela é tomada por uma vontade de descobrir mais detalhes sobre o ocorrido com a garota, e, com a ajuda de alguns colegas de trabalho, consegue uma carteira de identidade emprestada e um carro alugado que a permitem sair nessa jornada.
Porém, o livro deixa inevitavelmente uma sensação de frustração, não somente pelo fim trágico que a mulher encontra, mas porque sua busca resta totalmente infrutífera, e nem ela nem nós, leitores, conseguimos qualquer resposta. Aliás, qual era mesmo a pergunta que movia a busca da mulher? Mesmo essa questão é inconsistente. Na página 62, lemos que o artigo de jornal havia "omitido a história da jovem". Disso eu extraí que a motivação da mulher era descobrir a identidade da garota, qual havia sido a sua história até o momento da captura, quais eram os seus sonhos e aspirações, em suma, como era a sua vida... Na página 104, entretanto, a personagem lamenta ter perdido uma chance de "descobrir o que aconteceu com a menina e chegar à verdade de uma vez por todas." Espere... Mas "o que aconteceu com a menina" já não era uma informação dada? Não era um fato sabido que ela havia sido capturada, violentada e morta? O fato de que o livro não traz textualmente o tal artigo de jornal não nos permite sanar essas dúvidas.
Para um livro que é baseado em fatos reais, acredito que a narrativa pecou em não fornecer quaisquer esclarecimentos sobre até que ponto temos conhecimento do ocorrido em 1949 e o que ainda falta ser descoberto. Para mim, o livro não funcionou bem nem como ficção nem como registro histórico.
Detalhe Menor entrega-se a minúcias mas deixa a desejar nos pontos mais cruciais. Concluo, enfim, que essa foi uma das leituras mais frustrantes que fiz nos últimos tempos. Infelizmente, não posso recomendar o livro.
Nota: 1.5/5 estrelas.
Quem mais leu? Teve uma visão parecida com a minha, ou totalmente diferente? Fiquem à vontade para compartilhar as suas impressões, desde que, é claro, mantenham o respeito.
Obrigada e até depois!
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